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domingo, janeiro 30, 2011

Quero ser Feliz

Quero ser feliz. Para isso, preciso de modelos. Há os livros de auto-ajuda, há a felicidade oficial da "mídia"

01/11/2010 - por Arnaldo Jabor na categoria 'Crônica'
Quero ser feliz. Para isso, preciso de modelos. Há os livros de auto-ajuda, há a felicidade oficial da "mídia". Quero ser feliz e nas revistas vejo os ídolos modernos malhados, todos sedutores e comedores com a barbinha mal feita de propósito ("six o” clock shave") pegando as "modeletes" - todas rapadinhas com seus bigodinhos de Hitler no púbis (Brazilian Wax). Barbinhas ralas e bigodinhos verticais são a última moda importada de NY para os garanhõezinhos e namoradas chiques.

Não estou criticando isso; estou é com inveja desta ligeireza, tenho inveja da mediocridade dos objetivos. No Brasil de hoje, a burrice é uma benção. Os homens-celebridades estão cada vez mais seguros de seus haréns, as mulheres mais belas. No entanto, velho romântico, penso: e a conversa de depois? Como manter aquela energia narcisista? Meu avô uma vez me gozou: "Quer namorada inteligente? Vai namorar o San Tiago Dantas... (intelectual da época)".
Quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer das revistas. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia.
Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era um pecado; ensinaram-me que a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior, que nos coroasse de louros. A felicidade demandava sacrifício, uma luta sobre obstáculos. Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada à idéia de "dignidade", de vitória de um projeto de poder. Vemos os barbudos do século 19 de nariz empinado, os perfis de medalha, donos de um poder qualquer nem que fosse no lar, sobre a mulher e filhos aterrorizados.
Mas eu queria ser mais livre menos vergado ao peso de tanta responsabilidade severa.
Por isso, quando cheguei aos vinte anos, meu ídolo passou a ser o James Bond: bonito, corajoso, entendendo de vinhos e de aviões supersônicos, comendo todo mundo, de smoking. Ele era livre e mundano? Sim, mas mesmo o James Bond se esforçava, pois tinha a missão de "salvar o mundo". Era um trabalhador incansável que merecia as louras que papava. Hoje, não. Nossos heróis masculinos não trabalham ou ostentam uma "allure" ociosa e cínica.
A mídia nos ensina que os heróis da felicidade não têm ideal algum a conquistar, a não ser eles mesmos. A felicidade é uma construção de bom funcionamento, de desempenho. O ideal de felicidade é o brilho do prazer sem conflitos, sem afetos profundos - todos sorridentes e simpáticos, porque é mais "comercial" ser alegre do que os velhos heróis que carregavam a dor do mundo. O herói feliz passa a idéia de que não precisa de ninguém. Para o herói da mídia o mundo é um grande pudim a ser comido. Sem compromissos, ele quer sexo e amor, sem amar ninguém. Há um "donjuanismo" consentido, pois as mulheres não defendem mais virtudes castas ao contrario, cada vez mais imitam o comportamento deles. Desejam ser "coisas" se amando. Assim como a mulher deseja ser um "avião", uma máquina peituda, bunduda, sexy, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, super-potente, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angustias. O encontro humano virou um modelo de armar, um "lego" de carne. O herói macho A se encaixa em heroína fêmea B e produzem uma engrenagem C, repleta de luxo e arrepios entre lanchas e caipirinhas, entre jet skis e BMWs, num esfuziante casamento que dura no máximo, três capas de "Caras".
E de tudo isso emana uma estranha "profundidade superficial" (desculpem o oxímoro), porque este diletantismo raso tem o charme de ser uma sabedoria elegante e "contemporânea
Meu homem é antes de tudo um forte, mas um negador. Para ser feliz precisa negar, renegar problemas, esquecer, não lembrar das tristezas do mundo. Sua receita de felicidade: não pensar em doenças, ignorar o inconsciente, lamentar a miséria sem nada fazer por ela. O macho brasileiro tem pavor de ser possuído ou tomado pela fraqueza da paixão. Não há entrega; basta-lhe o encaixe.
Meu homem moderno almeja orgasmos longos, ereções vítreas sem trêmulas meias-bombas, meu homem feliz quer ser malhado e esportivo, se bem que informado e cínico, meu homem conhece bem as tragédias modernas, mas se lixa para elas, não por maldade, mas por um alegre desencanto.
Meu homem vive em velocidade. O mundo da internet, do celular, do mercado financeiro imprimiu seu ritmo nele, dando-lhe o glamour de um funcionamento sem corrosão, sem desgaste de material, uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice. Felicidade é um videoclipe; angustia é Antonioni.
Assim, meu homem feliz é casado consigo mesmo
Mas, chega um dia em que o herói deprime um dia em que a barriga cresce, o amargor torce-lhe os lábios, o "passaralho" cai e o homem feliz percebe que também precisa de um ideal de encontro, de algo semelhante a tal velha felicidade.

Ele começa a perceber, confusamente, que a verdadeira solidão é apavorante. Daí, ele faz tudo para evitar a idéia de morte, de fim, senão sua liberdade ficaria insuportável.
Com a idade, ele percebe que não há apoteose na vida. Nada se fechará numa plenitude, nada se resolverá inteiramente.
Daí, ele passa a viver um paradoxo: ligar-se sem ligar-se. Ele percebe que precisa do amor ou do casamento ou de mais poder como uma "esperança de sentido".
Aí, sua tentativa de felicidade fica "em rodízio", como em uma churrascaria: amor, poder, sexo. Em vez de se conformar com esta mutação sem finalidade, ele tenta satisfazer-se numa eterna insatisfação. Como um James Bond fracassado, como um Tom Cruise envelhecido que jamais perde a pose. Nem para si mesmo. E se gasta nesta "Missão Impossível".



quinta-feira, outubro 28, 2010

As 10 doenças que mais prejudicam a saúde dos idosos brasileiros:


Infarto, angina e seus amigos (11,8%) — A doença cardíaca isquêmica consiste no entupimento (ou, muito raramente, num espasmo) das artérias coronarianas, que levam o sangue ao coração.
AVC (9,9%) — A doença cerebrovascular consiste não apenas no derrame (AVC), mas também em outras formas menos dramáticas, mas que também prejudicam a autonomia do idoso.
Diabetes mellitus (5,9%) — Essa doença dispensa apresentação, e já escrevi um bocado sobre ela. Com o envelhecimento da população, espera-se um aumento cada vez maior do número de diabéticos. (Esqueci de incluir o diabetes mellitus no artigo sobre as 10 principais doenças da mulher brasileira… Corrigido.)
Enfisema pulmonar e bronquite crônica (5,6%) — Já descrevi o DPOC no artigo sobre as 10 principais doenças da mulher brasileira. Espero que ao longo das próximas décadas o problema comece a diminuir, como consequência do combate ao tabagismo.
Mal de Alzheimer e outras demências (4,2%) — Não é normal o idoso ficar gagá. Repito: não é normal. O esquecimento pode ter outras causas além da demência; o mais comum é uma depressão, mas também pode ser uma doença no corpo. (Leia também: Como saber se você está com depressão.)
Perda de audição (3,3%) — OK, isso não é bem uma doença, é uma condição crônica. Algumas pessoas realmente perdem a audição com a idade, e o aparelho de audição pode ajudar muito na reintegração dessas pessoas à sociedade. Mas às vezes a coisa é mais simples: ouvido entupido por cera. (Dica: não use cotonete dentro do ouvido!)
Doença cardíaca hipertensiva (3,3%) — Você reparou que a hipertensão não apareceu até agora? Se fosse só a pressão ficar alta, não haveria problema algum. Mas uma pressão arterial elevada por anos a fio pode causar uma série de doenças; já citamos o infarto e o derrame, mas o próprio músculo do coração pode adoecer, causando a doença cardíaca hipertensiva. Num grau mais avançado, isso vira insuficiência cardíaca, ou seja, coração inchado. (Existem outras causas de insuficiência cardíaca além da doença cardíaca hipertensiva.)
Pneumonia (2,7%) — Muita gente não sabe, mas a vacina contra a gripe (suína ou comum) também previne pneumonia; esse é um dos motivos dos idosos a receberem. Existem outras vacinas que poderiam ajudar, mas prefiro não discutir hoje se vale a pena ou não tomá-las. Outra forma de prevenir a pneumonia é cuidar de outras doenças, para que a pessoa não fique acamada ou de outra forma debilitada.
Osteoartrose (2,6%) — Esse é o tipo mais comum de reumatismo; ao contrário do que muita gente acha, não é a mesma coisa que osteoporose. Para saber mais sobre essa diferença, leia o início do artigo Como prevenir a osteoporose. Daqui a dois dias pretendo escrever sobre uma série de estudos que avaliou um dos medicamentos mais usados contra a osteoartrose.
Catarata (2,2%) — O olho humano tem uma lente, chamada cristalino, por onde a luz passa para chegar até a retina. Com a idade o cristalino fica cada vez menos transparente, mas o tratamento cirúrgico só deve ser feito se a catarata estiver incomodando a pessoa.
Assim como nas listas anteriores, os números entre parênteses representam a participação da doença na carga total de doença dos idosos brasileiros, medida em anos de vida perdidos, com um ajuste para o grau de incapacidade dos doentes que estão vivos, e levando em consideração o número de pessoas afetadas.
A maioria das doenças da lista pode ser prevenida e/ou adiada com um estilo de vida saudável e tratamentos adequados, mas geralmente não é possível evitar completamente a doença, e uma vez que a pessoa tenha, é para sempre. Nesse contexto, é importante privilegiar ações preventivas e de tratamento e recuperação que preservem a autonomia da pessoa idosa, ou seja, que permitam à pessoa continuar desempenhando suas atividades sem depender da ajuda dos outros.



domingo, setembro 12, 2010

Quando começamos a envelhecer

O envelhecimento começa ao nascer, mas é a partir dos 60 anos que as pessoas ganham o status de velho. O marco, estabelecido pela Organização Mundial de Saúde, serve de parâmetro para pesquisas e estudos que monitoram as transformações da sociedade. De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em Pernambuco, Alexandre Mattos, estudos científicos comprovam que quem se mantém ativo na terceira idade tem uma longevidade maior e com menos doenças. “Segundo as pesquisas, o envelhecimento bem-sucedido está baseado em um tripé: atividade social, financeira e afetiva e amorosa”, afirma.

Para algumas pessoas, ser considerado idoso soa estranho, incômodo. E esse rótulo pode parecer inadequado, também, para quem olha de fora. Tudo depende da maneira como a pessoa se coloca na vida. É isso que faz a gente achar que a idade de alguém, às vezes, é só um detalhe.
À primeira vista, é esquisito associar a imagem do cantor Caetano Veloso a alguém que já chegou à terceira idade. Mas, entre outras qualidades, é isso que ele é - um idoso, prestes a completar 70 anos. A atriz Fernanda Montenegro e a apresentadora Hebe Camargo já estão na casa dos 80, O cultuado e controvertido teatrólogo Zé Celso Martinez tem 73. Não é raro encontrar personalidades que alcançaram a maturidade e permanecem atuantes nos negócios, nas artes, na política e nos esportes.
O mesmo acontece com personagens anônimos, que continuam a produzir e criar, na vida profissional e pessoal. O jornalista Claudio Viana é um exemplo de vitalidade e mente ativa, associadas a uma boa administração dos limites físicos impostos pela idade. Além das atividades à frente de um escritório de comunicação com uma equipe de nove colaboradores, ele integra um grupo de discussão sobre comportamento de consumo, inovação e tendências, organizado pela Natura, com consumidores de todas as idades, considerados estratégicos.
O avanço do conhecimento e o acesso à informação colaboram para subverter a ótica do senso comum sobre a chegada à idade madura e seus efeitos sobre o emocional das pessoas. Mas a mudança interior é a maior responsável pela construção de uma nova terceira idade.
Claudio Viana reforça o discurso sobre a importância dessa mudança de postura e atitude, que ocorre de dentro pra fora: “Antes, eu achava que a idade era um limitador, mas, com o tempo, fui ficando indiferente a isso. Cada vez mais acredito que é possível viver várias juventudes ao longo da vida, mas é preciso estar atento para percebê-las. Se não, elas escapam. Uma das coisas que mais blindam a nossa visão para essas várias juventudes é o medo do ridículo”, afirma.
Sobre o receio do julgamento alheio, a psicóloga e gerontóloga Suelena Torres, afirma que, sociologicamente, o envelhecimento ainda é muito pautado por impedimentos culturais e mandos sociais, como, por exemplo, as máximas de que idoso não pode usar roupa muito colorida, andar de bicicleta ou dançar ritmos considerados jovens.
Na opinião de Suelena, professora da Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o idoso pode desempenhar as mesmas atividades de uma pessoa mais jovem, respeitando as limitações de cada um. “É preciso trabalhar a autoconfiança e a autoestima. As pessoas devem contestar os próprios limites e não repetir padrões de autocensura ao longo da vida”, sugere.
A IDADE REAL De acordo com a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2008, no Brasil, existem cerca de 21 milhões de pessoas com idade a partir de 60 anos. Esse universo é subdividido entre dois grupos: os idosos jovens, de 60 a 79 anos, e os muito idosos, a partir dos 80 anos.
A população está envelhecendo e o Brasil não é mais um país de jovens. Segundo Suelena Torres, até as famigeradas crises de idade, que antes aconteciam aos 30, 40 anos, hoje ocorrem aos 50. “A verdadeira crise, hoje, pertence aos jovens, que ainda precisam definir o que querem da vida”, diz.
Nossa população vive mais, mas ainda carregamos uma forte herança simbólica em relação ao caráter pejorativo do envelhecimento. Isso se revela em situações cotidianas como, por exemplo, na maneira de definir ou apresentar alguém como pessoa de idade, ou no comportamento dos próprios idosos. “A maior parte deles ainda se recolhe, se isola. O trabalho é uma maneira de se manter ativo socialmente. O fator ocupação é tão importante que algumas pessoas se negam a revelar que são aposentadas, com receio de serem vistas como alguém que não faz nada”, afirma Suelena.
Para a pesquisadora, a idade é uma espécie de rótulo ou máscara social. “É uma medida cronológica, um parâmetro de controle que pode ditar o que é ou não permitido para uma determinada faixa etária”, explica. Por esse motivo, a própria Suelena mudou de opinião em relação à opção individual de revelar ou omitir a idade. “A idade também pode ser usada como ferramenta de exclusão discriminatória, de status ou de manipulação, e isso determina a forma como você é olhado pelos outros”, afirma ela, que atualmente prefere não dizer quantos anos tem.
“Idade é a experiência do tempo do que somos a cada momento.” A afirmação é do professor do Departamento de Filosofia da UFPE, Jesus Vazquez. Segundo ele, com a idade, nos damos conta do nosso caráter efêmero. E, desde cedo, temos conhecimento de nossa temporalidade finita. “É esse caráter de finitude – que tanto nos incomoda – que nos faz tão frágeis, independentemente de quantos anos temos”, explica.
O que tem se tornado cada vez mais claro é que a idade de alguém é o resultado de uma equação que soma o tempo cronológico de vida com a idade emocional, mais a imagem que a pessoa passa (quantos anos as pessoas acham que você tem) e a posição que cada um ocupa na sociedade. E aí a autoimagem aparece como variável importante.
O professor de português aposentado Carlos Alberto Dantas, nem de longe, se define como idoso. “Não entro nas filas de idosos porque acho que tenho vigor suficiente para enfrentar o atendimento comum. E, quando as uso, preciso mostrar o documento para comprovar minha idade”, conta, admitindo que tem dificuldade de se reconhecer com os atuais 63 anos.
De todos os temas que permeiam o envelhecimento, o sexo é o mais melindroso. As reações ao tema variam de acordo com a região do País, mas, em geral, o idoso é visto como um ser assexuado. “Com a idade, a pessoa vai perdendo seu valor de mercado. É como se a sensualidade, a atratividade e o potencial erótico estivessem associados à capacidade reprodutiva e, nesse caso, as mulheres perdem mais”, diz Suelena Torres.
Mas, ela afirma que, dependendo da maneira como o assunto é colocado, as pessoas se abrem. “Eu me deparo com homens maduros que desejam ter parceiras da mesma faixa etária, mas, na maioria dos casos, encontram dificuldades para se aproximar. Por isso, muitos acabam buscando parceiras mais jovens, que são mais receptivas”, surpreende.